autoconhecimento e constelação, expressão criativa

O dia em que reencontrei a minha expressão criativa

eu posso me expressar

Recentemente li A Grande Magia – vida criativa sem medo, de Elizabeth Gilbert. Para quem não a conhece, ela é autora do best seller Comer, Rezar e Amar, que se tornou também filme famoso, com Julia Roberts.

Envolto num movimento de ampliar minha comunicação e vencer medos e travas que ainda insistem em boicotar meus projetos, tenho usado de vários artifícios para sentir-me em paz com o que falo, escrevo e divulgo nas redes sociais. Ler diversos livros sobre o assunto, fazer terapia, projetar e administrar o tempo, permitir situações de prazer, abraçar o ócio criativo… enfim, a jornada tem sido longa.

Geralmente você não percebe, quando vê alguém se comunicando, o quanto é desafiante para o comunicador bancar o que ele está transmitindo. Como é difícil assumir os próprios pensamentos, ideias, ousar ser criativo quando o mundo pede a normalidade e as estúpidas ideias politicamente corretas, se despir do papel do cara que quer agradar todo mundo para fugir das críticas, e transmitir algo que vem de um outro lugar muito além da própria mente e do próprio ego. O verdadeiro comunicador é um instrumento da comunicação, e assim como um médium tomado por uma energia exterior, ele se deixa conduzir por algo encantado, que lhe conduz a fala, a escrita, o pincel, os acordes, a massa do pão, as sementes do jardim ou seja lá os recursos que a vida lhe dá para encantar o mundo em sua volta.

Não é você quem faz a magia, assim como não era você que transmitia tanta luz pura e inocente quando, como criança, pegou a toalha de mesa e saiu dançando pela casa como se fosse um misto de Sherazade e ninfa tupiniquim… Seus braços voavam em torno do sol e da lua, seus cabelos flutuavam como ondas celestiais e seu sorriso abraçava todo o universo…

– Meninaaaaaa!!!! Volta já com esta toalha!!! Já para o quarto, troca de roupa, vá arrumar a cama e estudar!!! O que você está pensando? Eu aqui dando o duro pra fazer o almoço e você igual uma espavitada doida, sujando a toalha da sua bisavó!

E a menina, subitamente retirada do seu mundo onírico transcendental, se vê trazida ao perverso universo dos cadernos, lápis e obrigações.

Quantas e quantas vezes isso ocorreu com você, claro! – de outras formas, mas com igual sadismo e crueldade, mostrando a sua impotência e incapacidade de manter belo e feliz o seu sagrado mundo de criança e tendo que se adaptar ao mundo competitivo e chato dos adultos?

O não que vem do passado

Neste final de semana, mergulhado num curso terapêutico denominado Relacionamento em Equilíbrio, capitaneado por Ronald Fuchs e Fanny Van Laere, mal sabia eu que também iria acessar, mais uma vez, um NÃO para a minha criatividade e expressão, não este que veio do passado. Puxa… fui trabalhar relacionamento afetivo, com a amada Luciana, e subitamente, surge a vovó carrasca, proibindo-me de brincar, obrigando-me a limpar toda a casa no final de semana, desvalidando minhas vontades e forçando-me a comportar-me de forma adequada… para ela. Vovó!!! Eu já não falei pra senhora continuar enterrada, quietinha, no cemitério? O que você tinha que aparecer em Pinheiros, naquele grande salão de terapia, só pra lembrar o quanto ainda não valido minhas ideias, e inconscientemente, transfiro a minha raiva e frustração que tive com você para as mulheres da minha vida? Principalmente a Luciana?

Falo brincando, para não pegar este notebook e jogá-lo com ódio no chão! Foram muitas feridas. Muitas. Tantas, que resolvi enterrá-las no fundo do meu inconsciente, fazendo então cara de paisagem e dizendo: sim, está tudo bem! Já perdoei meu passado!

Perdoei uma ova! Lógico, já me trabalhei terapeuticamente um montão. Sei que não é a vovó. Mas sim os fantasmas do passado, a mágoa, a humilhação e a dor de ser dia-a-dia desvalidado e massacrado, não somente por ela, mas também pelo meu irmão mais velho, meu avô e, em menor grau, meu pai…

Como posso saber que existem mágoas não resolvidas? É bem claro: não consigo fazer algo sem morrer de medo de uma crítica hipotética, que irá detonar comigo. Ao menor sinal de desvalidação de qualquer pessoa, principalmente mulheres, eu reajo fugindo, virando as costas, ou agredindo. Sem a menor razão. Aprendi a não ser eu, com medo da crítica. Transformei-me num personagem que:

– fala coisas legais para agradar;

– não expõem suas ideias claramente;

– evita assuntos polêmicos;

– foge correndo de discussões e debates;

– por ter medo dos embates, não coloca a própria vontade;

– por não colocar a própria vontade, é engolido pela vontade dos outros;

– depois, explode do nada, devido a sentir-se usado e não fazer o que deseja…

 

Sistemicamente, honro os inibidos, aqueles que não se expressaram

A constelação familiar também me ensinou que os traumas vêm de mais longe: foram vividos por gerações anteriores às minhas, e por vínculo, eu vivo a mesma dor que um ou outro membro do meu passado familiar viveu. Por amor ao que eles sofreram, eu procuro, inconscientemente, sofrer igual… Ou seja, embora eu (e você também!) tenha um potencial criativo inigualável, resolvemos boicotar nossa expressão, e assim, podemos honrar com o nosso sofrimento, o sofrimento de outro.

Recentemente, o contrabaixista de uma banda famosa brasileira se suicidou. Sistemicamente, ele seguiu o vocalista, que também houvera se suicidado tempos antes. É uma escolha muito comum, mas muito comum mesmo: escolhemos sofrer, como forma de honrar pessoas que conhecemos ou nem conhecemos, já que, conforme a epigenética afirma, memórias traumáticas podem ser transmitidas de geração para geração e reproduzem os sintomas em descendentes que não tiveram contato com o fato traumatizante.

Quem não se expressou alegremente na minha família? Quem não teve a coragem de se mostrar, com medo da crítica e do julgamento? Em menor ou maior grau, todos! Absolutamente todos! Venho de uma família muito talentosa. Papai escrevia e pintava muito bem. Acabou em decadência, doente, falido e mentalmente debilitado. Mamãe é pianista, extremamente inteligente, buscadora espiritual convicta. Vive se criticando e se comparando e sente extrema dificuldade de se expressar. Desvalida a si o tempo todo. Vovô era extremamente talentoso. Fazia casas. Esculturas em madeira. Consertava rádio e televisão. Montava sistemas de alarme, elétrico e eletrônico. Contava histórias infinitas. Isso nos anos 70 e somente com a quarta série primária! Mas viveu frustrado e não se realizou profissionalmente… nem artisticamente… Vovó, a minha querida “carrasca”, era muito inteligente. Conhecia os poetas clássicos. Exímia cozinheira. Hábitos refinados e aparência até nobre. Mas o pânico e a neurose a prendeu dentro de casa, afastando-a do convívio até dos parentes mais queridos.

Para que eu possa me expressar em toda a potencialidade que também herdei do meu sistema familiar, preciso largar estas frustrações para trás. Não são só as minhas dores de humilhação e as mágoas por não poder ser eu. São dores muito antigas, de muitos, que carrego. Ou carregava…

O padrão só pode ir embora quando revivemos as emoções dolorosas com consciência

Tive a grande oportunidade, nesta vivência que participei, de poder reviver a dor de ter sido tão humilhado quando criança. Eu pedi, no final do ano passado, para que os meus guias espirituais me conduzissem neste túnel, em busca da minha plena manifestação como ser humano. E dia após dia, semana após semana, tenho tido testes que vão abrindo a ferida antiga que ainda não cicatrizou, fazendo a limpeza e permitindo a cura final…

Fanny e Ronald me lembraram meus avós: vovô bonzinho, espirituoso, inteligente e alegre – incluindo os lindos olhos azuis dele! E vovó megera (me desculpe, Fanny: é só projeção!), loira, clara, racional, dura… Fiquei com raiva e entrei no trabalho pronto para bagunçar. Lançar piadinhas em horas erradas. Era assim o meu jeito de reagir aos maus tratos da minha família. Bagunçando. Mas hoje também tenho consciência das emoções me dominando, e segurei a língua ferina. E não deixei este erê bagunceiro dominar meu trabalho, caso contrário não teria chegado à essência da dor.

A própria Fanny me trouxe uma luz: você está com problemas de colocar limites para si! E caiu a ficha! Enorme! Luciana, minha parceira de vida e dinâmicas, completou: já pensou em colocar uma frase, um mantra para você, afirmando algo assim: eu posso me expressar do meu jeito! Eu me permito!

Quando criança, eu não podia. Tinha que me adequar. Mas não sou mais aquela criança. E esta dor não precisa mais ficar comigo. Eu devolvo para você vovó! Você não soube se expressar! Você também, com certeza, foi massacrada! Sinto muito. Vivi a sua dor. E a de tantos outros. E me inibi. Mas agora acabou… eu me permito expressar, do meu jeito!

Agora, eu me autorizo! E se você me criticar, vovó, na voz de outras pessoas, ao até da minha mente julgadora (igual mamãe!), não fugirei mais. Nem reagirei com raiva. Somente irei sorrir. E continuarei me expressando. Obrigado, vovó! A lição foi dura, mas aprendi! Agora você pode descansar em paz… E se não for pedir muito, por favor, me abençoe, se eu usar a expressão de boa maneira, em benefício da alegria! Do amor! Do conhecimento! Da reconciliação!

 

 

 

Sobre alexpossato

Professor de constelação familiar sistêmica e terapeuta sistêmico

Discussão

2 comentários sobre “O dia em que reencontrei a minha expressão criativa

  1. Caro Alex, gratidão por mais este texto…Me identifico demais com o que você escreve…Escolhi fazer a formação com você ao ler os seus textos …Reconhecendo estar neste lugar…Gratidão…

    Publicado por Andréa Pereira Gontijo | janeiro 23, 2018, 11:48 am

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