alcoolismo e constelação, autoconhecimento e constelação, compulsão e vício, Sem-categoria

Acabe com o vício no sofrimento… mas devagarzinho…

vicio sofrimento

 

Cerca de 3 anos atrás procurei uma terapeuta que trabalha com óleos essenciais, e relatei que a razão de desejar o trabalho com ela era o reencontro com a minha capacidade de ter prazer. Estava numa fase muito produtiva profissional, reorganizando minhas finanças e numa boa relação afetiva, mas eu não conseguia curtir. Era tudo muito mental, a cabeça cheia de minhocas, os momentos de celebração poucos e com pouca entrega. Falando sério, eu nunca soube celebrar as conquistas, as vitórias…

E aí, vem ela com uns vidrinhos e óleos essenciais… Lavanda para acalmar, hortelã pimenta para dar um up, ylang-lang para excitar… eu olhei desconfiado para aqueles frascos… Como, justamente eu, capaz de entornar dois litros de vinho em um jantar, vou descobrir o prazer de viver através das sutis – embora deliciosas fragrâncias das plantas?

Faço um momento de pausa aqui na minha narrativa, para tentar lembrar as situações da minha vida onde me sentia verdadeiramente com prazer: a primeira que vem é andar no meio do mato, explorando cachoeiras, com amigos, violão e, lógico, turbinado por álcool. Outros momentos tem a ver com a cabeça chacoalhando ao som de Led Zeppelin, e… claro, bêbado. Mas tem momentos mais lúdicos e nem tão etílicos: brincar com os meus filhos, principalmente na primeira casa que eu pude comprar com minha ex… as crianças correndo no meio do mato, a casa pequena, simpática, uma chácara perdida numa região bucólica de São Roque. Momentos de vitória também: o lançamento do meu primeiro livro, que embora em co-autoria, e sobre um assunto que dizia mais respeito à minha parceira de escrita, me deu também um orgulho de “dever cumprido”. Mais recente, meu casamento foi um momento mágico, inesquecível. A jornada pelo Caminho de Santiago, ao lado da minha amada, deslumbrantemente transformador. Mas pera lá… o caminho de Santiago teve vinho todos os dias. O casamento, um ótimo espumante, presente do cunhado nota 10!

Vamos voltar ao parágrafo anterior? Como posso curtir o prazer da vida nas coisas sutis, se estou viciado somente em fortes emoções, acompanhadas por substâncias químicas?

O vício em picos de euforia

Ontem fiz uma palestra em Brasília, falando sobre prosperidade e paz de espírito. Um projeto novo, mensal, que vai além dos meus trabalhos de constelação familiar, que resolvi compartilhar com o público, falando das minhas experiências, acertos e erros, encontros e desencontros, sempre em busca da realização pessoal, paz financeira e equilíbrio interior. E disse, em algum momento, que nós, seres humanos, estamos viciados.

Sei que nem todos estão viciados em álcool, cocaína, jogos, pornografia, comida, compras, sexo ou trabalho. Mas de maneira geral, estamos viciados em situações que excitem. Mesmo aquelas que, aparentemente, são desastrosas: brigas, competição, perigo e medo. Sabia que estas situações – briga, competição, perigo e medo aumentam a adrenalina, acelera a pulsação, os batimentos cardíacos, dá uma sensação de estar vivo e em instantes, sacia você, dá um relaxamento… para depois… abstinência?

E por que atraímos situações de brigas, confusões, confrontos? Porque somos influenciados pelos padrões herdados da nossa família. Nascemos em lares onde nossos pais, irmãos, avós, tios, são agressivos, ou vítimas, ou reclamões, ou chantageadores, manipuladores, e desde criança “entendemos”, pelo condicionamento, que viver é isso. E mesmo fazendo mal a nós, precisamos repetir estas situações. Viver esta tensão dá uma sensação de pertencimento: uau, eu sou parte da minha família! Agora sofro como eles! Brigo como eles! Fracasso como eles! Sou infeliz como eles! E ao contrário, viver em paz, equilibrado, sem estes picos de excitação, faz com que a gente se sinta excluído. A paz é muito chata! Se não entramos nos problemas da família, do trabalho e do mundo, e até nas nossas próprias neuras, parece que não estamos vivos. É um vício…

Quando eu era menino, e ainda passavam propagandas de cigarro na TV, a que mais me chamava a atenção era do cigarro Hollywood. O slogan, “ao sucesso, com Hollywood!!!” entorpecia a mente, as imagens dos “bugues” descendo dunas de areia com jovens bonitos gritando, asas deltas dando rasantes, pranchas de surf enfrentando ondas radicalmente, ao fundo alguma trilha sonora roqueira… tudo de bom! Menos o cigarro, que era muito forte, ardido… um torpedo no pulmão…

E cá está o Alex, cheirando um vidrinho de óleo essencial. Pode isso, Arnaldo? Quando que os prazeres sutis da vida – um sorriso de criança, um vôo do pássaro, as luzes do entardecer, o profundo e negro céu do planalto, as cores das roupas indianas, os aromas de um alimento… irão me abastecer??? Lógico, tive que procurar mais ajuda em terapia…

Em busca do verdadeiro prazer

No decorrer de três anos, com inúmeras vitórias pessoais e a mania de não curtir nenhuma delas, acabei buscando a psicoterapia. Já não me serve mais uma vida de viciado. Em nenhum aspecto. Nestas décadas, vivenciei muitas experiências de picos de amor, experiências transcendentais, sem estar atrelado a substâncias químicas. Algumas trabalhando nos meus grupos, outras participando de rituais espirituais, outras simplesmente surgiram “do nada”, e eu sei, racionalmente, que na minha vida e para a missão que vim realizar, o vício no sofrimento precisa acabar.

Meu terapeuta tem me acompanhado desde que decidi olhar, pela primeira vez com assistência, para as razões que me levam a me entorpecer. Não somente de álcool. Mas de trabalho, de excesso de leitura e estudo, de distrações diversas… Ele me pergunta: qual a dor que você não quer ver? Como foi a sua relação com o prazer na infância? Quantas desvalidações você passou… e não esqueceu? Qual o seu grau de confiança diante da vida? Quantas mágoas ainda guarda no peito?

E vagarosamente, vamos descontruindo, passo a passo, os personagens feridos que ainda vivem dentro de mim, embora as feridas tenham ocorrido décadas atrás. Quando estudei neurociência, entendi que, para o cérebro, não existe o ontem: qualquer lembrança trazida ao “agora”, se torna “agora”. Isso quer dizer: todas as mágoas e dores que carreguei do passado me fazem continuar a viver no sofrimento. Muitas destas dores estavam soterradas e impedidas de surgirem e se curarem porque eu me entorpeço de diversas formas: não somente bebendo, mas me distraindo, fugindo, fazendo coisas aleatórias, trabalhando, enfurnado na internet, falando besteiras e assuntos aleatórios…

Parei de beber… aí a compulsão me tenta proteger do sofrimento de outras formas: vá viajar! Coma mais! Se distraia! Transe mais! Sim, eu disse: a compulsão me tenta proteger! Porque todos os comportamentos que temos têm uma intenção positiva. Mesmo que vícios, eles possuem um lado amortecedor, prazeroso, protetor…

 

O prazer de viver é suave, constante, sutil

Conforme vamos andando neste caminho de sair dos nossos vícios e distrações, perceberemos fatalmente as emoções escondidas emergirem, como o monstro do lago Ness. A tendência é voltar correndo para o vício, para a distração. É neste momento que devemos exercitar a disciplina férrea. Não ceder ao monstro. Ele não é real. São sombras do passado, e por mais que doa, já foi… É importante olhar nos olhos dele. Olhar para os machucados infantis. Para os momentos em que você foi abusado de diversas formas pelo seu pai, pela sua mãe, pelos seus irmãos, professores, religiosos, pessoas de confiança. As vezes em que você foi colocado para resolver situações que não eram suas, e acabou fracassando. É fundamental chorar as dores não choradas. Reconhecer a impotência da sua criança diante daquilo que foi vivenciado. Despedir-se dos mortos queridos. Expressar para o monstro, quem sabe em voz alta: você me machucou! Vou é um canalha! Você acabou comigo! Você me humilhou!

Olha que quem está falando isso, é um terapeuta já tarimbado em pesquisar as próprias sombras. Mas ainda tinham (ou tem?) algumas. E são as mais intensas… Porque, conforme vamos descascando a cebola da mente inconsciente, nos aproximamos mais e mais do núcleo da sombra. Como no filme Senhor dos Anéis… a longa jornada nos conduz, cada dia, ao núcleo da dor. Ao núcleo do sofrimento… E também à libertação final.

Desfragmentar os diversos “eus sofredores” que habitam o ser é um processo longo, exigente, e que deve ser feito de maneira amorosa. E mesmo antes de chegar “ao fim”, os benefícios são visíveis. Os momentos de paz interior que você começa a viver são cada vez maiores. Ao contrário, as quedas no vício do sofrer e na entrega à dor diminuem. Não importa nem o que efetivamente está acontecendo no seu mundo externo. É uma questão de purificar o seu jeito de ver a si. Limpar os óculos. Deixar, vagarosamente, o padrão de honrar sua família através do sofrer e do recriar dores antigas. Despedir-se da necessidade de adrenalizar a vida… Devagar, devagar, com muita paciência e cuidado… Pois, como diz o grande escritor americano Mark Twain, “Não nos libertamos de um hábito, atirando-o pela janela; é preciso fazê-lo descer a escada, degrau a degrau.”

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Sobre alexpossato

Professor de constelação familiar sistêmica e terapeuta sistêmico

Discussão

3 comentários sobre “Acabe com o vício no sofrimento… mas devagarzinho…

  1. Adorei seu relato. Adoro este caminho que você está percorrendo.

    Abraço

    Publicado por Eloisa Abadia Alves Diniz | agosto 24, 2017, 7:07 pm
  2. Adorei o novo post. Quando haverá Constelacao ?Abracos

    Enviado do meu iPhone

    Publicado por maria ines maia | agosto 31, 2017, 12:46 pm
    • Oi Maria Inês! Se for em SP, aqui vão os dados:

      14 de setembro de 2017 (quinta-feira)

      Constelação Familiar em grupo ( 5 vagas ) – das 15 às 21h

      Valor sugerido para constelar: R$ 400,00

      Valor sugerido para participar: R$ 50,00

      (Farei até 5 constelações, escolhendo no dia as questões de acordo com critérios terapêuticos, dentre todos que desejam “constelar” – colocar um problema pessoal para ser visto sob o olhar sistêmico)

      Informações e inscrições: atendimento@alexpossato.com

      Local: Espaço Maestro
      Rua Maestro Cardim, 1170 – Paraíso – São Paulo (ao lado do Shopping Paulista, 10 minutos do metrô Paraíso ou Vergueiro)

      Publicado por alexpossato | setembro 1, 2017, 12:50 pm

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