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Como é o meu treinamento para facilitadores de constelação familiar sistêmica?

constelar

Recebo perguntas e dúvidas de muitas pessoas a respeito do treinamento de constelação familiar. O que é muito natural, afinal, a terapia criada por Bert Hellinger ainda é um bebê, considerando, por exemplo, o trabalho pioneiro de Freud.

Então, para situar você a respeito de “como se aprende constelação”, vamos acompanhar um pouco a evolução da terapia ao longo dos anos. Em primeiro lugar, é importante entender que Hellinger nunca realizou um treinamento de constelação, ou um curso para formação de facilitadores. Ele sempre fazia seminários, e é o que continua fazendo. Nestes seminários, de um, dois ou vários dias, discorria sobre temas, fazia muitas constelações, e em geral o público era expectador do trabalho – embora, se você conhece a constelação familiar, sabe que não existe mero “participante” de constelação, afinal, todos nós entramos no campo e sentimos os efeitos do trabalho ocorrendo.

Os consteladores pioneiros no Brasil participaram ativamente destes seminários, e em algum momento se sentiram capacitados a treinar candidatos a facilitadores. Esse movimento foi espontâneo, pioneiro, e não havia uma regra, um roteiro a ser seguido. De certa maneira, isso ainda continua: o treinamento é livre, não existem órgãos que regulem a constelação sistêmica – nem a prática, nem o ensino.

Minha professora, Theresia Spyra, alemã residente no Brasil, aprendeu com Mimansa Ericka Farn, outra alemã, talvez a terapeuta que acompanha Hellinger a mais tempo – quase 40 anos. Mimansa, assim como Theresa, tinham um método de ensino bem vivencial. As apostilas eram quase que inexistentes, e apesar do treinamento estar dividido em módulos e temas, o trabalho dependia muito do que o grupo apresentava no momento. Dependia muito da fenomenologia, que é a base da constelação: os fenômenos que se apresentam, no “aqui e agora” do trabalho terapêutico.

Eu, especificamente, a partir de 2008, participei de cinco treinamentos de constelação com Theresia. E mais centenas de horas de vivência em grupos de constelação. Depois disso, ainda hoje, participo de seminários diversos, com Hellinger, Sophie, e outros consteladores… considero-me um eterno aprendiz. Assim, em  2012, comecei a desenvolver a minha forma de ensinar constelação, procurando seguir o modelo deixado por Hellinger nesta época: o movimento do espírito, onde as constelações são mais espontâneas, os movimentos dos personagens mais fluídos, o tempo de silêncio prolongado, o uso de frases é pontual, não existe praticamente intervenção no posicionamento dos representantes – como era prática anterior feita por Hellinger, e muitas vezes, não sabemos quem são os personagens que surgem nas constelações. Antes, eram colocados especificamente pai, mãe, filhos, avós, abortos, etc.

A forma de constelar veio mudando ao longo dos anos. Fortemente influenciado por Jacob Moreno e o seu psicodrama, onde as questões trabalhadas eram teatralizadas, e também com influências da PNL – metaposição e linguagem do corpo, de Virginia Satir e sua escultura familiar e em posse das teorias da terapia contextual de Ivan Boszormenyi-Nagy, além de ser psicanalista, terapeuta primal, entre outros caminhos, Hellinger partiu de um modelo mais marcado e dependente da intervenção do terapeuta, para algo mais livre e fluído, onde a atuação do terapeuta é extremamente sutil – e acreditem!-  é muito mais exigente permanecer nesta postura em estado total de presença e permissão. Saiu quase que totalmente do campo do entendimento racional, para o campo da experimentação sensorial e intuitiva. Porém, é importante lembrar: Hellinger é um terapeuta com décadas de estudos e trabalho. Que viajou continentes para estudar e aprender conceitos direto da fonte: por exemplo, estudou análise transacional com Erick Bern. Assim, na minha visão, só é possível permitir efetivamente o Movimento do Espírito na constelação familiar com muito conhecimento terapêutico – não é simplesmente um exercício de “deixar e vamos ver o que acontece”.

As Ordens do Amor na prática

Tenho instruído ultimamente meus alunos a estudar, ler muito. Não somente Hellinger – sim ele é o principal. Mas entender um pouco de PNL, Gestalt, psicodrama, psicanálise, ler Freud, Bern, Lowen, entre tantos outros desbravadores deste campo infinito da psicoterapia. Ainda mais num país onde tantas pessoas possuem sensibilidade extrema, alguns atuando com seus dons mediúnicos de diversas linhas, confundir “as estações” e deixar de fazer trabalho terapêutico para virar aconselhamento ou cura energética é um risco. Às vezes o trabalho até pode ser válido (muitas vezes o é), mas deixa de ser constelação.

E para ser constelação, entender, vivenciar e absorver as Ordens do Amor, teoria base de Hellinger, é fundamental. É neste ponto onde me dedico mais e mais. Embora as Ordens não sejam difíceis de compreender intelectualmente, elas são muito complicadas de praticarmos. Por exemplo: Quantas vezes nos achamos melhores ou mais capazes que nossos pais? Quantas vezes nos sentimos responsáveis por cuidar dos irmãos adultos. Quantas vezes nos apoiamos emocionalmente em nossos filhos? E a questão do estar aberto a receber? Ou fechado para dar? E ainda: quantas vezes excluímos e condenamos ferozmente pessoas que não seguem nossos padrões de crenças?

Instigo meus alunos a perceberem estas situações, e buscarem os pontos emocionais afetados. Não é possível praticar constelação, sem se entregar totalmente às Ordens do Amor. E estar a cada dia melhorando, se abrindo para a inclusão, para a transformação interior. É a minha forma de trabalho. Quando vejo alunos seguindo estas diretrizes, é nítida a modificação na vida deles, ocorrendo: melhores relações, transformações intensas, mudanças, trabalhos novos, a liberdade chegando. Assim, percebo com alegria que este aluno poderá permitir as mesmas transformações na vida dos clientes que atender. Porque a constelação, para mim, não é uma técnica, mas um caminho de vida. E num caminho, podemos guiar somente na região que conhecemos.

Treinar, treinar, treinar

Como vim da escola da Theresia e da Mimansa, o método de trabalho que adotei é bem vivencial. Eu diria 30% de teoria e 70% de prática. E para praticar constelação, temos que trazer nossas questões, nossos problemas pessoais para o campo. Forneço material didático – apostila – bem detalhada, e a cada ano vou acrescentando dados, modificando, porque é importante abastecer o cérebro com conhecimento. Mas a prática de constelação é fundamental. Até porque, para aprender a constelar em grupo ou individualmente, é fundamental colocar-se como facilitador.

O Projeto Incluir é também um diferencial do meu curso. É um projeto sem fins lucrativos, onde os alunos e ex-alunos atendem pessoas da comunidade, clientes com questões reais, e treinam constelar em grupo. Estou pensando em abrir o projeto para o treinamento de constelação individual também. Dessa forma, na prática, o aluno se desafia, se percebe, vê os pontos positivos e os pontos onde precisa se desenvolver, num ambiente muito próximo do que será o seu trabalho de dia-a-dia como terapeuta. E eu supervisiono.

Meditação – o mergulho nas percepções além do pensamento

Deixei para falar da meditação por último, de propósito. Vejo que uma das maiores dificuldades do ser humano é entrar em contato com o sentir. Muitas pessoas “pensam que sentem”, mas estão somente pensando. O pensamento não é sentir. Sentir é corpo. Independe da interpretação que seu pensamento dará. Você pode sentir uma pontada no rim. Um calor nas mãos. O suor no pescoço. A tontura na cabeça. Você pode transcender e sentir paz. Sentir o peito se apertar. Desejo sexual. Formigamentos. Contração ou relaxamento muscular. São milhares as sensações que ocorrem no seu corpo, durante um curto período de tempo.

Para se constelar, aproximando-se dos Movimentos do Espírito, é fundamental sentir, e sair da racionalidade. Sair do “querer entender”, ou do “querer resolver”. Pausar. Fazer as coisas mais devagar. A vida possui um caminho sutil desenhado para cada um de nós, que é o movimento do espírito, e o excesso de pensamento e a ação atrapalha ou impede vermos o caminho.

Sendo assim, treino um pouco de meditação sempre, nos cursos. Geralmente com músicas de fundo. Mas também em silêncio. E oriento o aluno a procurar meditar em outros locais, onde se sentir a vontade. Aprender a desacelerar. Talvez isso possa parecer um pouco incongruente com o aprender – como entender algo sem pensar? – mas eu garanto: é assim mesmo! Você se espantará com a assertividade que existe, quando seguimos este fluir do caminho, e não as respostas prontas que damos através da mente. Neste ponto, a constelação se une ao autoconhecimento profundo. Quanto mais você mergulha nesta forma de percepção, mais você se expande. Mais se liberta. Mais sabedoria percebe em si. Mais resoluções clareiam, magicamente, à sua frente. Menos apego às coisas e pessoas terá. É um caminho que exige perseverança, não há dúvida.

Eu sempre continuo a disposição para incentivar e apoiar todos meus alunos e ex-alunos. Sei que, às vezes, é necessário recorrer à ajuda de alguém. Também estou no meu caminho de sair da mente. De deixar-me guiar. Estou sempre em desenvolvimento – às vezes, com mais clareza, às vezes com menos. Caindo nos meus vícios e neuras, e me reerguendo – e também recorro à ajuda de outros, quando necessito. Por isso, não exijo absolutamente nada das pessoas que fazem o curso, a não ser se comprometerem a andar por este caminho. Alguns vão até onde conseguem e mudam a rota: o caminho do autoconhecimento é árduo, e a desconstrução dos próprios paradigmas é dolorosa. Não faz mal. Estão todos caminhando. Outros insistem – seja porque são perseverantes, ou teimosos, se identificaram ou porque acreditam. E confiam no trabalho que está sendo feito. Não por mim, mas pela constelação familiar sistêmica, da qual me coloco como instrumento – que estará sempre atuando dentro e ao redor de nós, quanto mais permitirmos. Em algum momento da jornada, esta pessoa se perceberá não um terapeuta, mas um farol. Recebe e permite tanta luz que, naturalmente, iluminará a jornada de outros. Sem esforço. Porque é natural.

Acho que é isso que gostaria de falar, neste momento! Um grande abraço pra você!

Tenha um dia cheio de bênçãos!

Alex Possato

 

 

 

 

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Sobre alexpossato

Professor de constelação familiar sistêmica e terapeuta sistêmico

Discussão

6 comentários sobre “Como é o meu treinamento para facilitadores de constelação familiar sistêmica?

  1. Obrigada pelo carinho e pelas maravilhosas informações!!!Adoreiii!!!

    Publicado por Cleuza Rinaldi | fevereiro 10, 2017, 2:09 pm
  2. Alex,

    Esse seu texto é simplesmente maravilhoso, completo e profundo… o essencial é simples , como diz nosso querido Bert!
    Gratidão por expressar para mim e por mim tudo que sinto e penso ! 🙏😍

    Elda Elbachá
    Psicoterapeuta Sistêmica de família, casal e individual
    Facilitadora em constelações, reiki e curas energéticas.

    Publicado por Elda Elbachá | fevereiro 10, 2017, 2:27 pm
  3. Possato, acompanho seu trabalho, leio e gosto de tudo qu vc posta. Gostaria que minha filha fizesse uma constelação com você. Sei que ela precisa, mas ela se recusa. Posso fazer a constelação mas que sirva pra ela?

    Publicado por Yara Jordão Pádua | agosto 7, 2017, 5:13 pm
    • Olá, Yara! Obrigado por acompanhar os textos! Bem, respondendo. A constelação é uma terapia, por isso, sempre pessoal. Quando a pessoa não quer, para ela não há o que fazer. Mas a mãe pode constelar a preocupação ou a sensação de responsabilidade que tem em relação à filha. Aí seria uma questão da mãe, e não da filha… Pode reverberar na sua relação com ela? Sim, mas nunca sabemos de que forma. De qualquer jeito, é sempre bom se trabalhar, porque você poderá aprender a lidar de outra forma na situação…

      Publicado por alexpossato | agosto 9, 2017, 7:26 pm

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