autoconhecimento e constelação

Entregue ao prazer ou apegado ao sofrimento?

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Eu, em Rishikesh, 2011/2012 – Índia, em busca da minha paz…

 

Acabo de voltar de uma viagem curta e muito revigorante, em Cunha, região montanhosa que fica entre o vale do Paraíba e a Serra do Mar, conhecida pelas suas cerâmicas feitas utilizando o método dos fornos de alta temperatura, e também pelas dezenas de Fuscas que borboleteiam pelas estradinhas sinuosas…

Encontrei pessoas bacanas, que assim como eu, optaram por viver uma vida para além dos padrões sociais ditos “convencionais”. Inclusive gente muito mais arrojada que eu, que em algum momento resolveram largar suas carreiras corretas, para seguirem o que o coração desejava… muitos se aventuraram por experiências em comunidades alternativas, viajaram por países afora, entregaram-se a caminhos espirituais diversos, tiveram suas experiências com sexo, drogas e rock’n’roll, formas diversas de lidar com o dinheiro, a propriedade, o ecossistema… e estão aí, como qualquer ser humano, buscando a felicidade, o seu lugar no mundo.

Gente linda, assim como são lindas tantas e tantas pessoas que optaram pelo caminho ortodoxo: família, carreira, segurança, estabilidade. Não devemos esquecer que, atrás da casca que vestimos – o espiritualista, o executivo, o empresário, o descolado, o rebelde, o sério, o justo, o revolucionário, etc., etc., existem seres humanos como qualquer um. Atendo gente em Alto Paraíso, atendo gente em São Paulo, atendo gente pelo interior do Brasil… e francamente, não vejo diferença, no íntimo das pessoas, nem nos problemas que elas me trazem: são questões em geral com o relacionamento afetivo – raiva, ciúme, mágoa, abandono, insegurança, medo… E também questões de relacionamento familiar, problemas financeiros, dificuldades com a espiritualidade e a fé, falta de energia, motivação e foco, doenças físicas, emocionais ou espirituais… Seja um engravatado, seja um hippie ou uma freira, na essência, os problemas são os mesmos.

O que todo ser humano busca, em sua vida? Eu poderia resumir de uma forma simples (mas não simplista): buscamos a felicidade e o prazer. E queremos passar longe dos fatores que nos causam sofrimento.

 

Tanto o hippie quanto o executivo desejam a felicidade, o prazer. E querem afastar aquilo que lhe causa sofrimento. Um, procura o prazer, no convívio com a natureza, com a espontaneidade e  a vida despojada, com a arte e a espiritualidade. Outro, busca o prazer nos bens, no conforto, no poder e na adrenalina que a conquista de patamares na vida causa. Ambos os caminhos estão absolutamente corretos e dignos, e podem levar à satisfação, mesmo que momentânea. Mas não devemos esquecer que, em ambos os casos, por não estarem totalmente satisfeitos com a vida, tanto o hippie quanto o executivo sentam-se na mesma mesa para compartilhar drogas, álcool, sexo desequilibrado, mentiras nas relações, puxadas de tapete, tudo isso permeando esta tal busca da felicidade. E lógico, empurrando o ser para o inferno das emoções distorcidas e relações conflituosas.  Aproximando-o do sofrimento. O ser humano vive esta gangorra de prazer e sofrimento, satisfação e frustração, esteja ele numa comunidade enfincada na mais bela chapada do sertão do Brasil, ou sentado sob o ar condicionado do escritório de luxo, no vigésimo andar de algum edifício na marginal Pinheiros, em São Paulo. Seja ele um artista entregue ao seu talento e com razoável sucesso, ou um monge com toda a sua vivência religiosa e conhecimento espiritual, ou ainda um funcionário de alguma estatal… quem sabe a filha do fazendeiro dono de inúmeras propriedades no interior de Goiás… todos entregues a este passeio na montanha-russa, que é lidar com a nossa sombra interior.

 

Descendo o morro da Macela, em Cunha-SP

Descendo o morro da Macela, em Cunha-SP

Ontem, eu estava fazendo uma caminhada, em plena segunda-feira, descendo um morro lá em Cunha, sob uma forte garoa, junto com a amada e uma amiga… Esta foi uma opção que tomei para minha vida: viver uma vida de prazer. E somente agora, aos 47 anos de idade, estou ouvindo notícias desta vida de prazer. Antes, tive que investigar: o que me dá prazer? Como desejo uma relação afetiva? Quanto quero ganhar por mês? Em que desejo trabalhar? O que flui por mim?

A minha opção é uma vida mais próxima da natureza, mais próxima da espiritualidade, mais próxima do que a sociedade convencionou chamar de alternativo. Sem me distanciar do forte chamamento que o trabalho de cura com a constelação familiar me traz. Mas eu sei que muitos, talvez a maioria das pessoas, optarão por ter uma vida mais convencional. E tudo bem! O meu modelo serve para mim. Somente para mim. Não posso obrigar que as pessoas tenham prazer nas coisas que me dão prazer. Nem mesmo meus filhos… Cada um é cada um. E cada um deverá fazer a própria lição de casa: encontrar o que lhe dá prazer, e descartar o que lhe traz sofrimento.

Se libertando dos padrões de sofrimento

Nesta jornada de libertação dos padrões dolorosos, todos eles herdados do meu sistema familiar – libertação que sempre demonstra ter mais algum entrave para ser deixado – estive preso a muitos padrões que me traziam sofrimento. Trabalhava porque tinha medo da pobreza e da miséria – logo, a miséria residia dentro de mim e me trazia sofrimento. Tinha relações afetivas com medo de ser abandonado e com a necessidade de fazer diferente do que meus pais fizeram – logo, o sofrimento do abandono e a desconfiança no parceiro moravam dentro de mim. Fazia, profissionalmente, algo que eu achava me traria reconhecimento – assim, vivi buscando ser visto e aceito pelos outros. Sofria, sofria, sofria.

Em meio a tudo isso, temperava o sofrimento com altas doses de álcool e tabaco. E mais ressaca, mais culpa… mais sofrimento…

 

A primeira coisa a fazer é se perguntar:

– O que me dá prazer? Qual estilo de vida quero para mim? Como gostaria de viver a minha vida? O que quero fazer da minha vida? Como desejo viver minhas relações?

Faça isso com sinceridade, sem se limitar pelos “nãos” que surgirão na sua mente.

E anote tudo. E logo em seguida, anote também os “nãos”.

Investigue seus medos. Perceba que dentro de você haverá uma voz que dirá:

– Nunca! Você não pode! Você não merece! Nunca conseguirá! Não tenho coragem!

Arregasse as mangas. É hora de trabalhar. Você não poderá ficar muito tempo em momentos de prazer e felicidade enquanto não desarmar estas programações que lhe arrastam para a sombra.

Consciência e compaixão por si mesmo

Seja você um hippie ou um executivo, deverá aprender a serenar a mente. A criar um espaço de observação, de silêncio, de não-julgamento dentro de si. Para poder estar em contato com a avalanche de sentimentos e emoções distorcidas que irão dominar sua mente, suas emoções e seu corpo. Não tenha dúvida. Se você realmente quer a paz, terá que lutar por ela. E lutar de uma forma pacífica e amorosa, o que significa: buscar não reagir em hipótese nenhuma aos sentimentos internos. E se perceber que se deixou ser dominado, respirar, centrar-se e deixar passar mais uma vez.

Você acessará a raiva interna. Os medos. As taras. O ciúme. A inveja. O orgulho. A covardia. A mentira. A dó. A tristeza. A fraqueza. Olhe para cada uma dessas partes. Não as negue. Simplesmente olhe. Permita que estas emoções e sentimentos existam. Respire em cada um deles. Não rejeite, nem queira ficar com eles. Aos poucos, estas energias irão se dissolvendo. Pode ter certeza disso. No tempo adequado. Paciência. Segure sua mente, tudo passará.

Mudando o padrão

Ontem, enquanto descia o morro da Macela, quase escorreguei por duas vezes. Percebi que estava tentando manter o mesmo passo que minhas companheiras, que andavam mais devagar, e tomei uma atitude muito cuidadosa com medo de cair, pois o chão estava molhado e com limo. Segurava o corpo, travava o movimento e andava com medo de cair. Foi isso muito tempo, até que percebi que estava sofrendo, com medo de uma queda que poderia acontecer. Queria evitar a dor de uma possível queda, e assim, sofria a descida inteira. A queda já ocorrera na minha mente e eu estava vivenciando a cena incessantemente! E ao perceber isso, disse às meninas: tchau! Vou andar mais rápido. E deixei que o corpo ditasse o movimento, o ritmo, e me entreguei a observar isso – o movimento, a passada, a velocidade. Esqueci que poderia cair. Não pensei mais nisso. E lógico: acabou o sofrimento.

Esse exemplo simples serve para qualquer situação onde estamos sofrendo. Podemos identificar como estamos fazendo para dar vida ao sofrimento. Qual é a dor que queremos evitar? E deixe esta dor fazer parte. Sim, eu posso cair! Ou: eu posso ser traído! Ou ainda: eu posso perder meu dinheiro! E perceba que seus movimentos estão levando exatamente para próximo daquilo que você quer evitar: a queda, a traição, a quebradeira… pois a lei mental é clara: aquilo que focamos com intensidade e energia, se realiza.

E então, pergunte-se: como devo proceder, agir, a partir deste momento? E mude! Faça diferente! Arrisque-se! Ouse! Mas não esqueça: não tente “jogar fora” o sentimento ou situação que você não quer mais! Se não consegue se libertar de algo, pelo menos reconheça a existência desse algo, respire, sinta suas sensações, por pior que sejam… Negar de nada adianta, e não há como jogar fora sentimentos e emoções na sua vida. Energia não desaparece – somente, pode ser transmutada em outra energia…

Sei bem: nem tudo é tão simples como ajustar um passo na caminhada. Mas na essência, é simples sim! Só que às vezes, o “ajustar o passo” poder significar sair de um relacionamento – aconteceu isso comigo, e após muito tempo, muita dor e sofrimento, consegui me libertar… e libertar minha companheira. Mas pode significar ficar com alguém e cuidar. Pode significar sair de um trabalho. Ou mudar de cidade. Abandonar um vício. Iniciar uma nova atividade. Mudar seu comportamento sexual. E as mudanças mais importantes na vida levam um tempo. Se algo lhe provocou ou provoca sofrimento, seria bom você entender que esta foi e é a única maneira que a sua alma consegue aprender a ter liberdade e prazer. Quanto maior o sofrimento, significa que você tem uma grande capacidade de sentir prazer e estar bem. Lições difíceis reservam prêmios generosos. Pode crer nisso. Deus é absolutamente justo e amoroso com seus filhos.

 

 

 

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Sobre alexpossato

Professor de constelação familiar sistêmica e terapeuta sistêmico

Discussão

2 comentários sobre “Entregue ao prazer ou apegado ao sofrimento?

  1. Alex, parabéns pelo texto, gostei muito e me fez imaginar essa cidadezinha e o quanto estou distante do pazer, mas estou no caminhomde descoberta, quem sabe um dia..

    Abraços,

    Laís Campos Corrêa
    Departamento Comercial
    11 5576.0892
    aacd.org.br

    Publicado por Laís Campos Correa - Convênios | novembro 25, 2014, 2:46 pm
    • Este é o caminho, Laís! Este é o caminho! Olhar para o horizonte, ver o bem, a paz, a luz… e andar em direção a este destino. que é o seu. Arrumando o que se tem para arrumar a cada passo. Sem deixar fios soltos, suavizando as arestas… Aos poucos, talvez, este horizonte venha até você… a vida se faz nestes pequenos passos, mas diante do mistério do universo, um passo pode significar um gigantesco salto quântico rumo à luz que você é! Não confie nas limitações da mente. Ela sabe muito pouco. Confie em seu coração…

      Publicado por alexpossato | novembro 26, 2014, 1:23 pm

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