Posted by: theresa | Fevereiro 28, 2008

Segundos e terceiros casamentos

married.jpg- Eu escolhi ele para casar! Não os filhos dele!A pessoa me encarava com um tom desafiador. Aceitei o desafio:- O seu casamento não dará certo. Pode separar agora!Ela ficou muda. Seu noivo mudou de posição na cadeira. No fundo, ele sabia que estava se envolvendo num grande enrosco, e não fazia nada para sair disso. Esses são os sistemas familiares, que empurram as pessoas de lá para cá, buscando-se uma harmonização que poucos percebem como fazer. O sistema familiar não permite impunemente exclusões. E seus filhos estavam excluídos por ele, que com má vontade, obedecia as ordens da mulher, que controlava cada passo que ele dava. E estavam excluídos por ela, que embora não aceitasse, também estaria casando com os filhos e inclusive com a ex-mulher dele. - Eu aceito que ele vá ver os filhos dele! disse-me ela, com raiva.- Fala isso pra ele, então. Agora! Com respeito e carinho, como deve ser uma pessoa que ama.Ela mal conseguiu balbuciar as palavras. Mais parecia uma criança mimada, flagrada com um doce furtado nas mãos. Não existe nenhuma separação entre um ser humano e outro. Segundos e terceiros casamentos consagram uma união de todas as pessoas que participaram nestas relações, embora os vínculos vão ficando cada vez mais fracos, conforme outras uniões vão surgindo. Sistemicamente, os filhos de um primeiro relacionamento devem ser vistos e aceitos por todos do segundo casamento. A ex-mulher e o ex-marido também devem ser vistos. Não estou dizendo trazê-los pra casa e colocá-los na mesa de jantar. Isso não! Quando acabou uma relação, isto deve ficar bem claro para todas as partes. Neste caso que estou narrando, os filhos sempre serão filhos do pai, e não podem e nem devem ser abandonados. A ex-esposa sempre terá o papel de ex-esposa, mãe dos filhos, e terá eternamente o seu lugar no coração do marido. Experimente esquecer alguém que lhe marcou profundamente, como um amor do passado… É impossível, não é mesmo? Isto são os sistemas: eles não são criação moralistas ou regras de convivência. Ao contrário, são mapas que se apresentam dentro dos relacionamentos, e uma das coisas básicas é a certeza de que pessoas excluídas numa relação, permanecem influenciando futuras relações.- Você me disse que esta terapia não tem certo nem errado! Eu vim aqui acertar o meu relacionamento, e não ouvir estas idéias de que tenho que ver o outro! Imagine! E ainda ver a ex-mulher dele? Aquela jararaca?- Jararaca… era assim que você a definia, enquanto mantinha o relacionamento extra-conjugal durante tantos anos, até finalmente haver a separação dele? Bem, mas esse não é o caso. Os sitemas se demonstram através das emoções que você sente. Como você demonstra muito rancor contra os filhos dele e a ex-mulher, não estou dizendo que você está errada. Você está deixando-se influenciar por um sistema que existe em você e também faz parte dele. Pouco me importa julgá-la certaou errada. O meu papel é perceber onde está desconfortável, e ajudá-los a fazer os ajustes necessários para que fique confortável. Ajustar significa incluir, não excluir. Não posso fazer nada se você não aceita isso.O marido, no canto, balançava a cabeça, e seu movimento corporal estava dizendo: sim. Ele concordava comigo. Mas assumia um papel de vítima, querendo que alguém resolvesse a situação por ele. Ele também traíra a mulher e abandonara os filhos. Ele também provocou a separação da sua noiva do ex-marido. Ele também deixou que ela dominasse sua própria vida. Os ajustes também passavam por ele, que teria que incluir em sua vida o que a sua constelação mostrasse. Com certeza haviam pessoas, antepassados nas duas famílias que foram excluídos e provavelmente com violência. Como posso saber disso? A energia que os dois dispensavam no relacionamento era mais de confronto do que de entendimento. Estavam juntos visivelmente unidos para brigar um com o outro, para desestabilizar, e não para construir. É possível reverter este quadro de confronto, desde que um deles, pelo menos, esteja realmente a fim de olhar o significado destas emoções que impedia uma união harmônica. E não é a toa: para solidificar esta relação, os dois destruíram outros relacionamentos. Todos os seres humanos estão interligados, são dedos da mesma mão. Ao destruir um relacionamento e virar as costas para isso, a mão sofre, automaticamente, todos enfrentarão problemas. Essa é a idéia sistêmica. Estar em harmonia com os outros, de outros relacionamentos, não tem nada a ver com ser bonzinho e caridoso, ou dar a cara para bater. É bom não misturarmos religião nessa história. É uma atitude madura e altamente curativa: olhar nos olhos do outro, aquele com o qual estamos magoados ou feridos, ou até com sentimento de culpa, e saber que ele faz parte de você. Se estamos olhando um filho magoado, é saber que o respeitamos, o vemos e o acolhemos, mas sempre como um filho: o filho é sempre o pequeno, e o pai, sempre o grande. Se é uma ex-esposa, é olhar ela como igual, acolher o amor que houve durante o relacionamento e respeitar os frutos deste amor. Se é um marido ou esposa de uma relação onde você causou a separação, é olhar com respeito a ele ou ela, e assumir seus próprios atos, sabendo que suas atitudes causaram dor em outros – em você também.São atitudes simples, mas difíceis de serem tomadas, porque temos no nosso inconsciente a idéia de que somos pecadores, e o pecado merece punição. O que não vemos é que a punição é automática, através do nosso sofrimento interior. Não é necessário o dia do juízo final ou a outra vida. Mas o mais belo é saber que, com essas atitudes simples, mas corajosas, é possível aliviar e muito esta dor interior, e estabizar e harmonizar relacionamentos conflituosos. Principalmente com as pistas e insights dados através da constelação familiar sistêmica. 

Theresa Spyra é alemã, terapeuta com especialização em constelação familiar, empresarial e profissional sistêmica. Conheça o seu trabalho clicando aqui!

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